sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Um carnaval diferente

  
      2011 será definitivamente um espetáculo bem diferente do que a grande nação do samba está acostumada. O evento acontecido na Cidade do Samba alterou de maneira significativa o sentido da apresentação deste ano. É evidente que um acontecimento como este desastre deixa marcas profundas, difícies de cicatrizar. O complexo da barracões no cais do porto do Rio é um sonho almejado por todos os profissionais e apaixonados por carnaval há muito tempo. Quem conhece um pouquinho da história da formação da linguagem do nosso carnaval irá se lembrar do quanto nossos antepassados correram da polícia e se esconderam na casa de Tia Ciata. De lá pra cá foi uma estrada muito longa até o reconhecimento por parte do estado da função sócio-cultural das escolas de samba, que inclui a construção do sambódromo na década de 80.

       Cada uma das conquistas foi sempre regada com muito suor e muito trabalho. As escolas de samba sempre lutaram contra as adversidades: contra as intempéries do tempo, expostas a chuva em barracões improvisados. Sempre tiveram que superar os preconceitos das elites pseudointelectuais. Sempre tiveram que lutar contra o estigma da violência e da contravenção. Definitivamente, fazer carnaval no Brasil, a terra do carnaval, sempre representou ( e ainda representa na maioria das escolas) matar muitos leões por dia.

     Por todas essas razões é que nossos corações se entristecem com o sinistro ocorrido naquele dia fatídico. Eram mais que fantasias e alegorias em chamas: eram sonhos queimando. Sonhos de afirmação cultural, de identidade, de expectativa e vitória. A Cidade do samba representa um marco, uma vez que eleva a nossa arte maior ao estatus de industria cultural reconhecida pelo estado e pela sociedade. É claro que os primeiros batuqueiros da casa da tia Ciata jamais imaginaram que um dia a brincadeira deles chegaria tão longe, mas de certo eles lutavam pelo reconhecimento de suas identidades e liberdades culturais.

    Toda solidariedade do mundo à Grande Rio, a União da Ilha e a Portela. Mas é certo que o samba não queimou, que a arte não se perdeu, nem mesmo o amor de todas essas comunidades por sua arte maior. Pelo contrário: este será um renascer de valores muito importantes para todo o mundo do samba: união e cooperação. Será um carnaval diferente: os pés que vão pisar aquela avenida, competindo ou não, se lembrarão da importancia de cultuar seus ritos culturais mais profundos, que vão muito além das plumas e paetês. É hora de tirar as lições da trajédida, reconstruir os sonhos, sacudir a poeira e dar vida ao carnaval.

   O samba não morre. A cultura do samba não morre jamais. Que venha um carnaval inesquecível, com muito brilho: brilho de alma!


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